Poucas memórias permaneceriam tão nítidas na mente do cabeleireiro quanto o pedido daquela mulher que, mal entrara no salão, sentou-se e disse: “Pode pintar”. E era engraçado, porque parecia que gritava, mas sua voz era tão abafada quanto o murmurar do vento. Era como se guinchasse a plenos pulmões para simplesmente poder ser ouvida.
Pintar um cabelo virgem demora. Talvez não em qualquer outro cabeleireiro, mas, para aquele, a primeira vez merecia toda a circunspecção de qualquer outra primeira vez em qualquer outra coisa. Mesmo como um ritual. Bem, era preciso lavar, tratar quimicamente (de forma auspiciosa), descolorir, hidratar e, enfim pintar. E hidratar uma última vez. Aquela mulher magérrima e nada encantadora permaneceu quieta por longo tempo e, você sabe, cabeleireiros conhecem todos os tipos de tipos. Era óbvio que ela permaneceria ali, inerte, até o final dos tempos.
Mas, para sua surpresa, quando pincelou a tintura carmim na primeira mecha de cabelos, as feições austeras da mulher transfiguraram-se para algo incompreensível.
Abriu a boca e tagarelou sobre tudo, absolutamente tudo. Descreveu com detalhes seu corpo feio e, sem o menor pudor, declarou a todos como era uma pessoa esquisita e mal comportada. As outras clientes espremiam o nariz, como uma forma de não ouvir o que sabiam que ouviam, e ninguém poderia fazer nada para evitá-lo. Espremer o nariz era como uma forma de se defenderem. Ouviam, mas não tinham culpa.
Descreveu sonhos desnecessários e, havendo qualquer psicanalista no salão, poderiam defender categoricamente a posição de que aquela mulher era um agouro para qualquer forma de convivência. Sorte não haver algum.
Às vezes ria, sempre das próprias desgraças, que ela fazia questão de explicar com detalhes, mostrando-se uma macabéia fidedigna. Mal-amada, nada talentosa, mal-sucedida até em ser mal-sucedida. Enfim, fodida mesmo.
Na hora de pagar, o cabeleireiro sugeriu-lhe um corte diferente, afinal, aquele corte não tinha nada com sua personalidade – o que era verdade, mas era verdade também que nenhum outro teria. Ela respondeu que faria se não precisasse pagar e é claro que o cabeleireiro disse que não. “Bom, então tá”. Cortou algo completamente fora de qualquer manual, um desalinhamento total. A mulher adorou.
Ela, afinal, se dirigiu ao caixa e, bem, a caixa podia jurar que não tinha visto aquela mulher entrar. A mulher pagou o corte. “Falta o preço da tintura”. “Que tintura? Meu cabelo sempre foi dessa cor”. “Ah é?”. “É”. Aquela cliente era realmente esquisita. Riu como um porco e saiu. E Só pagou o corte mesmo.