“Em as várias artes, e por excelência nesta de escrever, o melhor caminho entre dois pontos, ainda que próximos, não foi, e não será, e não é a linha a que chamam de recta (...)”. (José Saramago)

Segunda-feira, 19 de Maio de 2008

Lady

De "O diário da princesa".

Meu coração é como uma princesa egoisticamente escarafunchada em seu castelo, cheio de paredes. Sabe, de repente não quero mais tê-lo por aqui, ó, príncipe encantado, salvando-me da bruxa má que é a solidão. No final, a solidão dói menos que estes monstrinhos que você me traz para suas batalhas. E, então, aí estão as minhas estantes, empilhadas, as minhas jóias, desarranjadas; e poucas criadas restaram para organizar a desordem. É que a matrona senhora do vazio reina em mim e a dor e talvez a preguiça tenham me tornado conservadora.

Sou frágil, mas não revelo. Passo por cima de muitas mágoas, relevo e perdôo com facilidade, a menos que não esteja bem protegida. Mas para aqueles que me manuseiam, saibam que para isto é preciso muito tato. Sou orgulhosa também, e tem quem aja como se não fôssemos um. Não, não, não. Não sei trabalhar em grupo, então, ou você me faz sentir importante, ou choro. Não saia tomando decisões por aí, que eu também posso tomar as minhas e, se preciso for, sou capaz das maiores desfaçatezas.

Tenho convicção de que posso vencer qualquer batalha.

Segunda-feira, 5 de Maio de 2008

Ghost of Corporate Future

Cala o peito e ouve. Ou escuta, ou os dois, porque é você quem fala consigo mesmo. E súbito essa voz: “não! Você está errado. As pessoas são só pessoas como você. Não as leve no sério, não beba tanto café, não assista ao jornal das dez”. Estar errado é bastante insatisfatório, eu sei, mas receber um conselho destes, sem explicação, simplesmente te faz sentir especial. Talvez apenas no conforto da certeza é que você seja capaz de romper com tudo.

Por isso os fantasmas se divertem. Prepare-se, você pode ter sido enganado.

Não há quem te dê certeza. Você está sempre na dúvida. Sempre errado.

Desista.


Quinta-feira, 1 de Maio de 2008

Olhar cigano

Centímetro por centímetro as pessoas vão se passando umas às outras. Estimo a densidade da conglomeração pela freqüência com que os ombros meus se topam com outros encaixes, enquanto eu imagino a visão superior de um anjo, que centrado em um único ser pode vislumbrar bem o desenhar do movimento deste corpo navegante. As aias e os miseráveis todos se abandonam neste antro, todos com cabeça baixa e, pra mim, seus olhos estarão sempre plantados no asfalto.

No entanto, há essa mulher sentada na beira dos chafarizes. Seu vestido mirrado e ainda branco a vestir-lhes os joelhos emolduram as canelas finíssimas, cujas extremidades dependuram um escorrer de cera que convém chamá-los pés. Diz que é uma das filhas abortadas pela Morte, a donzela mui bela que é a última visita de qualquer criatura viva. Diz-se que suas sucessoras são suas próprias filhas e, caso a infeliz não tenha desenvoltura suficiente, volta à terra dos mortais. Pois bem, é certo que essa velha branca espera o reencontro com a mãe, e é certo que se fosse possível a outrem deslumbrar esse momento, não seria crível apontar quem é mãe e quem é filha, pois a Morte não envelhece jamais. É sempre tema. A morte é a moda, triste ou alegre, de toda temporada.

Enquanto isso, a não tão idosa velha se contrasta com os olhares baixos. Talvez o abandono da mãe tenha lhe deixado com a consciência leve. Sua coluna não é nada aprumada, pelo contrário: é sinuosa e atarracada. No entanto, sentada como está, imóvel até o último fio do escasso cabelo, ela parece um vegetal se estirando ao sol, quase suspensa pelo queixo anguloso. Pisca como em uma última tentativa de movimento.

Qualquer um que nela esbarra, acaba por se molhar nas águas do chafariz, uma água gélida, que causa arrepios e tosses tão fortes quanto as da pneumonia.

Quarta-feira, 23 de Abril de 2008

Recórdios de um gravador

Desculpa mãe, desculpa pai. Não sou mudo. Descobri que falo já não lembro nem mais como. Só lembro de um dia de repente perceber que, quando dizia-se “tadinho, não diz uma palavra”, era quando eu ria por dentro todo até arrebentar os ossos de tanto rir. Segui mentindo, porque a desmentira dá trabalho demais. Daí mentir mais e mais era parte da vida. A cada novo dia, era um dia a mais de mentira, ainda mais difícil desmentir do que no dia anterior.

E nem era propriamente uma mentira, porque mudo, não podia eu mentir. Mentiu quem disse que eu não falava e me roubou assim a voz. Uma vez roubada, também já não se tratava de um completo mentiroso.

Então ninguém mentiu.

Acontece que aquilo o que é motivo de riso em criança, agora me tortura. Certa vez uma amiga me contou (e as pessoas adoram me contar coisas sem começo nem fim, porque sabem que eu não as interrompo nunca) – me contou que adorava ser gordita pequetita. Sim, ela falou as palavras gordita e pequetita. Meninas! Ela gostava porque, por ser “gordita” e “pequetita”, todos os adultos lhe davam comida a todo tempo. Mas agora ela cresceu, ainda gor... rechonchuda, e os meninos não gostam dela e ela não gosta dela por causa disso. Talvez eu goste dela, ainda não pensei sobre isso. O fato é que me sinto exatamente igual. Não gosto mais de ser mudo, mas não posso simplesmente começar a falar.

Senhor gravador, me promete uma coisa? Promete nunca ser encontrado? Promete se esconder sob os colchões da minha cama até o final dos tempos, quando haverá guerras, fome, peste, anjos, deus e dilúvios? Tenho medo de que alguém escute minha voz. É desconfortável até de pensar. Talvez eu cresça e trabalhe com desenhos animados e então eu mesmo poderei dublar todos os meus personagens e todo mundo vai ficar pensando: “Uau, quem será que dubla o capitão-não-sei-das-quantas?”. Taí, gostei.

Mas até lá, esse segredo é nosso. Já vi filmes de adultos e uma coisa que eu percebi é como eles usam deliberadamente a palavra “traição” pra fazer chantagem emocional. Então não me obrigue a isso, ok? Eu odeio a palavra traição. Acho que de agora em diante prometo a mim mesmo não repeti-la.

Sei lá. Tchau?

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Quarta-feira, 16 de Abril de 2008

She's on it, she's a millionaire

Ela está te olhando, mas não está te vendo. Você é só mais um que passa por essas catracas. Mas você ela acha gorda, e para você, ela até tenta ser simpática, porque você é tão bonito; e você, porque não paga logo a passagem? Eu acho assim, que é o seguinte:

Ela ri, porque iguais a você ela já olhou sem ver milhares.

Seus cabelos são compridos e sem vida. Ela parece sua tia? Está certo, todo mundo tem ao menos uma tia parecida com ela. Mas seu corpo perfeitamente enquadrado em sua poltrona cataléptica não cairia bem senão a ela. Veja bem, sonhar não tem nada que ver com a luz do dia, do tempo que não passa, do trabalho acomodado e tedioso.

Quanto é a passagem? Passa na rua A ou B?

Quantas vezes a mesma pergunta?

E infelizmente não é na batida que vai morrer, porque esse veículo é o monstro mais dinossáurico que a civilidade poderia ter inventado.

Um ônibus.

Segunda-feira, 31 de Março de 2008

Playhouse of the Ridiculous Theater

Bowie, you were wrong. Terrivelmente wrong. Aqueles não eram os caras legais. Eles apenas estavam certos quando quebravam suas guitarras e permitiam todo o tipo de atrocidade sob o efeito da anfetamina. Eles eram perfeitos sabotadores de guitarras.

Você não escutou, cara? Sou eu o novo câncer. Em vez de transar, eu como chocolate. Chocolate, Física Quântica e Jazz. Somos novos punks: transgressores mas politicamente corretos. Escondemo-nos atrás de óculos do governo e tomamos toda sorte de iniciativa.

Enquanto eles, well, o melhor que fizeram foi chutar drags escada abaixo à luz dos holofotes. Disseram que a purpurina era o espírito de Nova York, porque... o que é Nova York sem os holofotes? É como a atmosfera de pó rosa-cintilante que, ao final de cada cena, voltava à porra nenhuma.

O circo das aberrações pegou fogo. Mas e quanto a você ou quanto a nós dois? Ainda usamos caneta de riscar papelão para pintas as unhas? Sim. Aquela mulher ainda dorme no meu quarto e não vê a luz do sol já faz não sei quanto tempo. Todo mundo sabe que ela não suicidou coisa nenhuma e talvez até saibam onde esteja. Quando chego em casa, me deparo sempre com uma barata no interruptor. Fantasio que ela é sempre a mesma.

Antes de dormir, Jackie vai até a cozinha. Primeiro pensei que ela fosse pegar um copo d’água, mas não. Ela vai, tira toda a roupa e beija toda a geladeira, escorregando frigidamente o lábio por todo o metal enferrujado. E começa a tremer e começa a gemer e ninguém além de mim já viu algo mais estranho.

Domingo, 23 de Março de 2008

Feliz Páscoa

Poucas memórias permaneceriam tão nítidas na mente do cabeleireiro quanto o pedido daquela mulher que, mal entrara no salão, sentou-se e disse: “Pode pintar”. E era engraçado, porque parecia que gritava, mas sua voz era tão abafada quanto o murmurar do vento. Era como se guinchasse a plenos pulmões para simplesmente poder ser ouvida.

Pintar um cabelo virgem demora. Talvez não em qualquer outro cabeleireiro, mas, para aquele, a primeira vez merecia toda a circunspecção de qualquer outra primeira vez em qualquer outra coisa. Mesmo como um ritual. Bem, era preciso lavar, tratar quimicamente (de forma auspiciosa), descolorir, hidratar e, enfim pintar. E hidratar uma última vez. Aquela mulher magérrima e nada encantadora permaneceu quieta por longo tempo e, você sabe, cabeleireiros conhecem todos os tipos de tipos. Era óbvio que ela permaneceria ali, inerte, até o final dos tempos.

Mas, para sua surpresa, quando pincelou a tintura carmim na primeira mecha de cabelos, as feições austeras da mulher transfiguraram-se para algo incompreensível.

Abriu a boca e tagarelou sobre tudo, absolutamente tudo. Descreveu com detalhes seu corpo feio e, sem o menor pudor, declarou a todos como era uma pessoa esquisita e mal comportada. As outras clientes espremiam o nariz, como uma forma de não ouvir o que sabiam que ouviam, e ninguém poderia fazer nada para evitá-lo. Espremer o nariz era como uma forma de se defenderem. Ouviam, mas não tinham culpa.

Descreveu sonhos desnecessários e, havendo qualquer psicanalista no salão, poderiam defender categoricamente a posição de que aquela mulher era um agouro para qualquer forma de convivência. Sorte não haver algum.

Às vezes ria, sempre das próprias desgraças, que ela fazia questão de explicar com detalhes, mostrando-se uma macabéia fidedigna. Mal-amada, nada talentosa, mal-sucedida até em ser mal-sucedida. Enfim, fodida mesmo.

Na hora de pagar, o cabeleireiro sugeriu-lhe um corte diferente, afinal, aquele corte não tinha nada com sua personalidade – o que era verdade, mas era verdade também que nenhum outro teria. Ela respondeu que faria se não precisasse pagar e é claro que o cabeleireiro disse que não. “Bom, então tá”. Cortou algo completamente fora de qualquer manual, um desalinhamento total. A mulher adorou.

Ela, afinal, se dirigiu ao caixa e, bem, a caixa podia jurar que não tinha visto aquela mulher entrar. A mulher pagou o corte. “Falta o preço da tintura”. “Que tintura? Meu cabelo sempre foi dessa cor”. “Ah é?”. “É”. Aquela cliente era realmente esquisita. Riu como um porco e saiu. E Só pagou o corte mesmo.